Analista de investimento
Artigo originalmente publicado em 20/09/2023
Walgreens tem dito uma vida difícil e não é de hoje. Até agora, a cotação já recuou 40% e a ação hoje é negociada nas suas mínimas de 25 anos. Isso mesmo! Desde 1998 a cotação não atingiu um nível tão baixo.
Tenho recebido muitas perguntas sobre essa ação. Não é por menos! Essa dividendo aristocrata está presente na carteira de muitos investidores. São 47 anos crescendo seus dividendos e, caso continue por mais 3 anos, eleva seu status a um king. Mas pelo andar da carruagem, isso parece cada vez mais distante.
Meu objetivo neste artigo não é fazer uma recomendação, mas utilizar o exemplo dessa empresa para que possamos ficar alerta aos sinais que indicam perigo próximo.
LIÇÃO 1. Varejo é um negócio difícil
Quem investe no mercado brasileiro está familiarizado com a tese de Luiz Barsi sobre o varejo: a tendência das varejistas é ruir.
Embora eu discorde de vários pontos em sua tese, uma coisa é fato: o negócio do varejo é realmente difícil. Vejamos Walgreens, varejista do ramo de farmácias e que tem causado muita dor de cabeça em seus investidores. O desempenho em queda da empresa não é recente: desde 2015 temos vistos que o mercado não anda muito empolgado com essa stock. O extremo pessimismo a fez recuar 78% desde o seu pico em 2015.
Certamente muitos compraram acreditando se tratar de uma ação de valor e que lucrariam com o upside, mas a tendência de baixa já dura 8 anos e sem muita expectativa para o futuro.
O gráfico abaixo apresenta alguns números importantes. A linha em laranja mostra que a receita de WBA em 2022 foi de US$ 132,7B, que representa um crescimento de 74% no período de 10 anos.
Ou seja, um crescimento médio anual de 5,7%. Nada excepcional, mas significativamente acima da inflação no período. Mas aqui entra o problema da nossa lição: por ser varejista, é difícil estabelecer um fosso econômico significativo, além de ser um negócio de margens reduzidas.
Nesses 10 anos, a empresa cresceu, mas a lucratividade não. Enquanto a margem bruta caiu de 28,2% em 2014 para 21,3% em 2022 (linha verde), a margem operacional (linha roxa) apresentou uma piora mais preocupante: de 4,68% em 2014 para apenas 0,74% em 2022, despencando 84% nesse período. São resultados assombrosos e sem perspectiva de melhora.
Até 2018, mesmo com as margens em queda, a empresa estava conseguindo ver um aumento no seu fluxo livre de caixa. Mas desde então o declínio tem sido significativo.
Repito: o varejo é um negocio difícil e a concorrência feroz que Walgreens enfrenta com CVS, Walmart e Amazon dificulta ainda mais sua vida.
Lição 2. Gestão comprometida não é suficiente: é necessário conhecer o negócio!
No início do artigo mostrei que faltam apenas 3 anos para que Walgreens alcance o status de um dividend king.
Na teleconferência dos resultados do 3° trimestre, James Kehoe, CFO de WBA, enfatizou que estavam absolutamente comprometidos com os dividendos e com o grau de investimento. Essa fala é importante, já que é um dos poucos atrativos que restam da empresa. Mas a empresa perdeu a sua janela anual de aumento. É mais um duro golpe para as ações de Walgreens.
Em 2021, tomou frente da gestão da empresa a nova CEO Rosalind Brewer. O objetivo era recuperar o negócio principal que foi atingido por diversos golpes como a ascensão dos genéricos e comércio eletrônico. A solução encontrada para trazer a empresa de volta aos trilhos foi diversificar o negócio, investindo na integração vertical dos serviços de saúde para seus pacientes. Assim, a gestão tem estado ocupada com as aquisições de prestadores de serviços de saúde: em 2022, WBA fez parceria ou adquiriu participação na VillageMD, Summit Health e Shield, e em 2023 conclui-se a aquisição da CareCentrix, totalizando 729 locais de atendimento.
Essa unidade de negócios representa 12% da receita da empresa e o crescimento de vendas foi de 30% no 2T/2023 comparativamente ao mesmo período do ano anterior. Mas o segmento ainda enfrenta uma perda operacional de US$ 159 milhões e um margem operacional de -28,9% (embora tenha melhorado dos -40,9%).
Foi um bom negócio? Talvez, se fosse em outra gestão. Brewer tem experiência no setor de varejo, mas em empresas como Sam’s Club e Starbucks. É preciso conhecer o ramo e a sua saída tem causado certo entusiasmo nos investidores com a possibilidade de que a nova gestão tenha expertise no ramo da saúde. Infelizmente, a gestão interina não significou muito avanço.
Assim, uma gestão comprometida com salvar a empresa não é suficiente. Ela precisa, necessariamente, conhecer o mercado em que a empresa se insere, pois do contrário poderá afundá-la ainda mais.
Lição 3. Dividend yield pode ser uma armadilha
Enquanto muitos compraram essa ação acreditando ser uma ótima escolha para carteira de valor com grande potencial de upside, outros olharam para seu yield de quase 9%!
Por tudo que já expus ao longo desse artigo, sabemos que o rendimento de dividendos atuais nada mais é que uma resposta a grande liquidação da ação. Adicionalmente, especula-se que não haverá aumento de distribuição até 2025, possivelmente até um corte de dividendos.
Walgreens já perdeu sua janela de aumento anual de dividendos e o mais importante agora é encontrar uma gestão não apenas comprometida, mas com capacidade de salvar essa empresa que se encontra a deriva.
CONCLUSÃO
Meu objetivo aqui não é fazer uma recomendação mas alertar os investidores para os desafios que Walgreens tem enfrentado e continuará enfrentado. Varejo não é fácil e para minimizar os ventos contrários, buscaram elevar Walgreens de uma gigante do varejo para uma gigante da saúde.
Até agora não tem dado certo! E dará? Talvez! Mas por ora, eu me manteria distante dessa stock.
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